O mundo e suas partes
O mundo se divide em dois grupos. Os que não acreditam que o mundo pode ser dividido em grupos, e os que acreditam. Eu pertencia com muito orgulho ao primeiro grupo.
Mas aí eu percebi que eu era a primeira pessoa do mundo a dividi-lo em grupos. E então eu vejo que eu faço parte do 2º Grupo.
Eu separava as pessoas entre as que sonhavam alto, e as que tinham sonhos simplórios.
Eu, espertona, me colocava no 1º. Afinal, eu queria ir pra Nasa (na 3ª
série), pro CERN (no 1º ano), pra Usp (no 3º ano). Hoje eu vejo que
faço, talvez, parte do segundo (visto que eu quero só ir pra casa).
Achava que no mundo existem 2 grupos de criaturas, aqueles com um grande futuro, e aqueles com um futuro bobo (dentro do meu bobo pensar). E tudo o que eu mais queria era estar no 1º grupo. Hoje eu nem me importaria de estar no segundo.
Eu posso inventar milhares de divisões diferentes das conhecidas: ricos
e pobres, inteligentes e burros, sortudos e azarados, felizes e
infelizes.
Tem quem prefira exatas, e quem prefira humanas. Eu participava do 1º grupo com maior orgulho. Hoje vejo que não seria tão mal ser do segundo.
Tem o grupo dos que gostam de desafio, e dos que não gostam. Eu sempre achei estar no 1º. Não.
Tem a parte que merece, e a parte que não merece. Eu fiz
um esforço danado pra tentar me encontar na primeira parte, mas as
muitas coisas erradas que fiz quase me colocam na segunda.
Eu posso, calmamente, dividir todo o mundo. Cada um em sua devida parte.
Hoje eu faço parte do grupo de pessoas que estão no segundo grupo de tudo que eu citei antes.
Tem uma parte do mundo que sabe muito bem o que quer da vida, e tem a outra parte, que já não sabe mais.
Eu adorava quando sabia exatamente o que fazer, o que eu queria.
Mas eis, então, que hoje eu percebo que não sei mais. Já que eu
descobri que posso querer outras coisas, menores, e que me deixam
igualmente feliz.
Eu queria ser a Física mais brilhante. Queria ser diferente de todo
mundo que faz parte do grupo de pessoas com um futuro bobo. Queria ter
um futuro magnífico, olhando pro céu, fazendo cálculos horrivelmente
malucos e brincando de ser cientista.
Esse ano eu tive certeza de que não era exatamente isso que eu quero.
Eu quero, acho, divulgar. Isso mesmo, hoje, eu estudo pra saber bem. E
não mais brincar de cientista, eu quero outra coisa. Eu quero escrever.
Mas aí eu não sei mais. É como deixar de lado o sonho de criança e ter que enfrentar uma Marina que tinha certeza.
O que eu quero hoje é simples. Aliás o que eu quero hoje é a simplicidade.
Coisas pequenas e simples que me fazem feliz. Escrever, é um bom
exemplo. Eu não tenho sentido isso com meus sonhos de criança de ir pra
Nasa, pro Cern, pro Inpe, pra qualquer lugar grande, com um grande
emprego, e uma vida complicada, e sem a segurança de estar feliz.
E então hoje eu estou na parte do mundo que já não sabe mais.
Só sei mesmo que devo fazer parte do grupo de pessoas que dividem o mundo em partes.
E faço parte daqueles que pertencem a uma parte querendo pertencer a outra. Ao menos hoje.
Mas de qualquer forma, acho fascinante todo o mundo e suas partes, que eu mesmo defino.
(Detalhe: dentro da parte do mundo que é mulher, estou, hoje, dentro do grupo das que não estão de tpm)
Comments
Dos que questionam as formas pré-concebidas, sua profissão ou até o sabor de determinado pão.
Um questionamento qualquer é sempre o ínicio de uma nova evolução.
Ingenuidade? Prefiro permanecer no grupo dos que acham que não.